2 de Fevereiro de 2012

Blog, kaput

E é a 2 de fevereiro de 2012 que dou por encerrada a actividade deste blogue. A todos os que por aqui passaram, obrigado. Até um destes dias.

13 de Setembro de 2011

Não há condições

Tenho andado um bocado chateado por causa da crise. Uma pessoa quer falar do tempo ou das alfaces que comprou para plantar, mas não dá. Chateia-me, porque já estava habituado a conversas recheadas de futilidades e agora insiste-se em falar sobre coisas sérias. Haja paciência. Aborrece-me ver as pessoas preocupadas com a subida dos impostos. Mesmo entre amigos, as conversas habituais sobre futebol, carros e gajas, resumem-se a crise... futebol e gajas. De carros, quase nada. Parecendo que não, isto deprime. O Homem é um animal de hábitos, há que conserva-los. Ainda que em alguns casos o Homem seja só animal, não é por isso que deve preocupar-se com estas coisas que dizem que estão para vir, como a falta de dinheiro para ir 43 vezes de férias por ano ou para a peregrinação dos festivais de Verão. Não quero sequer imaginar (mas já estou) como será o Facebook sem a enxurrada de fotos e respetivos “Gosto”… seria uma desgraça e isso não pode acontecer, o mundo não está preparado.

Anda tudo preocupado com as casas que não se vendem. Dizem que os bancos não emprestam dinheiro. Isto leva-me a pensar que há um mestre de obras escondido em cada português. Mas isso até é animador. Só revela que, afinal, somos mesmo um país de aspirantes a detentores de Mercedes Classe E e casas com carros de bois no meio do jardim.

Por mim, punha-se fim às conversas sobre coisas sérias de uma forma simples, aplicando o golpe da avestruz, técnica utilizada até há bem pouco tempo no nosso país e que se revelou infalível durante décadas.

Que belo tempo tem estado. Muito bom, para Setembro. Muito melhor que em Agosto. Quem está de férias agora é que tem sorte.

2 de Agosto de 2011

Da serie "fora de serie"

À mesa das negociações num qualquer Ministério da grande nação de Portugal…

-Quanto é que o povo, essa espécie ignorante, pagou?

-Epah… pelas nossas contas foram mais de dois mil milhões.

-Hum… realmente é muito euro.

-Sim, de facto foi algo que fugiu ao nosso controlo, mas também não tínhamos por onde fugir, tendo em conta as relações da administração com o Supremo.

-Pois… e o que vão fazer agora?

-Vender mediante a melhor proposta.

-E que proposta estão a pensar escolher?

-Bem… temos aqui uma proposta na ordem dos cem milhões com a manutenção dos trabalhadores…

-Hum…

-E ainda beneficiam por se tratar de uma empresa de capitais nacionais.

-Ok! Fazemos assim: Quarenta milhões pelo banco, despedimento de metade dos trabalhadores, indemnizações a vosso cargo e comprometem-se a injectar mais quinhentos milhões. Se daqui a um ano tivermos um lucro considerável, damos-vos mais dez milhões e não se fala mais nisso.

- VENDIDO!

da serie "sem serie #2"

1 de Agosto de 2011

Viva a Cultura!

Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura, tomou a sua primeira decisão:

Nomeação:
Cargo:Motorista
Nome:André Viola
Idade: 21 anos
Vencimento Mensal:1.866,73€

Sem comentários



28 de Julho de 2011

Um mata, o outro esfola

O Governo da Republica prepara-se para alterar a lei das indemnizações, em caso de despedimento, dos actuais 30 dias para os 20 dias de vencimento por cada ano. Isto, meus caros amigos, encontra-se em discussão hoje na Assembleia da Republica, essa nobre instituição cobiçada por muitos, odiada por outros e completamente ignorada por outros tantos.

Ora acontece que, não contentes com a redução da indemnização, o Governo prepara-se para reduzir dos, ainda não promulgados, 20 dias para os 10 dias de vencimento por cada ano já em 2012, por tratar-se de um período que vai de encontro com a média (novamente a malfadada média) da UE. A justificação para tal medida é simples: Segundo o Governo, essa é uma das muitas medidas inscritas no acordo com a Troika, ou como diria Paulo Portas: “Triunvirato”, essa não menos nobre instituição que aparenta ter as costas, bem, largas. Em defesa da medida, claro está, encontra-se a habitual desculpa que foi o anterior governo a assinar o memorando.

Não bastando o tempo despendido na discussão e o dinheiro gasto na alteração da medida (sim, estas alterações enchem os bolsos a muito advogado), o governo antecipa-se a ele próprio comunicando a alteração de uma medida que ainda não entrou em vigor. Complicado? Sim, mas esta é uma daquelas situações em que me vem à mente aquela velha expressão: “um diz mata e o outro esfola”.

27 de Julho de 2011

Crise?

Num despacho exarado pela Digníssima Presidente, ou Presidenta, nunca sei ao certo, da Assembleia da República, Srª. Assunção Esteves, foi o Deputado, ex-Presidente da Assembleia da Republica da IX Legislatura (2002-2005), Mota Amaral, agraciado com o enormíssimo esforço dos contribuintes portugueses com um gabinete, secretária (com a categoria de Assessora Parlamentar) + gabinete e um automóvel BMW 320, com motorista, para uso pessoal.

Numa altura em que se discute como efectuar cortes na despesa, acabando por cortar apenas nos rendimentos de quem trabalha, não deixa de ser irónico todo o discurso de poupança do Estado.

Já era tempo de uma manifestação clara de poupança por parte do Estado. Sei que estaríamos a falar de trocos, mas o exemplo tem de vir de cima. Não me parece que o Sr. Mota Amaral, que deve, com certeza, ter um rendimento acima da média dos portugueses, necessite de gastar dinheiro dos contribuintes em minudências e luxos suportados pelos que vêm o seu subsídio de natal cortado.

PS: Quando às notícias, publicadas no jornal i, que dão conta que os vencimentos dos funcionários públicos são, em média, €500 superiores aos dos funcionários do privado, proponho que façam a seguinte conta:

Salário mensal de um Administrador da CGD €17.457

Salário mensal de um Assistente Técnico da Administração Pública €680

Em média estes dois funcionários do público ganham por mês €9.069

Conclusão: As médias servem para dissimular a realidade.

6 de Julho de 2011

Isto está mal

Afinal de que importa ter austeridade
quando temos empresas de rating
que nos dão cabo da vontade

O dinheiro é de quem o anseia
de nada serve a equidade
nesta nação cansada de levar tareia

E já agora, saí uma Lampreia
que amanhã não sei se ouvirei mais verborreia
de uns tais senhores engravatados da Assembleia.

5 de Julho de 2011

Go with the flow?

A conclusão a que chego, por estes dias, é a de que não basta querer. Pior: ao que parece, não há nada que possamos fazer para que Portugal não caia no abismo. Por estes dias, isto anda assim...

Pastelaria - Mário Cesariny

A frase a seu dono

1 de Julho de 2011

Nada

E eis que, do fundo da galeria, um grito de misericórdia se fez sentir. José, que entretanto envergara a sua reluzente armadura, ouviu o grito e estremeceu. “Quem, no seu perfeito juízo, daria tal grito no lugar dos passos perdidos?”

O grito fez-se sentir novamente. Desta feita não aparentava ser um grito de dor, mas sim de prazer. José ficou entorpecido com a chinfrineira e pediu explicações ao seu fiel secretário.

O Secretário João, homem de simples condição, explicou que nada sabia de tais gritos, mas que, muito provavelmente, se tratariam de gritos vazios desprovidos de sentimentos profundos.

José recusou-se a ouvir. Pegou na navalha que repousava silenciosamente na mesa-de-cabeceira e, acto contínuo, furou os ouvidos. O sangue que jorrava dos seus ouvidos nada tinha de semelhante ao dos comuns mortais. O azul, que entretanto adornava as paredes do palácio, acarretava, intrinsecamente, um significado que ia muito além da sua condição de soldado da nação. Era a prova que José, o soldado, era um missionário do divino colocado neste mundo para defender a nobilíssima causa da defesa da vedação que separava o real do imaginário, a fronteira onde, outrora, Judas perdera a bota correspondente ao seu pé esquerdo.

29 de Junho de 2011

Ódiovisual


uma vez fui à merda
voluntariamente
o que não é bem o mesmo
que me terem lá mandado

fui à boleia por uma autoestrada
que me liga o mero músculo à alma
para que nada me subisse à cabeça
antes de passar pela sensibilidade
só peguei no cosmos na pasta de dentes
num frasco com o cordão umbilical
para ter sempre à mão as raízes
pousei o coração como uma mochila aberta
nunca um dedo espetado foi tão revolucionário
acabei por ir de carroça e burro
mas atravessei meio mundo
pelo caminho fui violado por um jovem polícia
num desses países onde se esquecem de nós para sempre
fui lava pratos num desses países onde já não há gente
para comer seja o que for ou morrer à fome
fui sopeira iluminada numa casa de passe
de um desses países onde ninguém fode
fui jardineiro de um cemitério importante
onde só vai parar quem já nem morre
mas também me apareceu um anjo ao cair da noite
um sábio disse que o meu amor era inocente e forte
um profeta falou da minha vida como se falasse da morte
quando cheguei à merda estavam todos à minha espera
acabei por não entrar achei que não valia a pena
o que não é bem a mesma coisa que o porteiro da merda
me ter impedido de entrar ou fazer concluir à força
que eu já conhecia aquela merda de algum lado.


Joaquim Castro Caldas, in Convém Avisar os Ingleses, Quasi Edições, Março de 2002, pp. 54-55.

15 de Junho de 2011

Quartas sonoras

Porque às vezes a vida tem destas coisas...

"(...) When there's a doubt in your mind
'Cos you think it all the time
Framin' rights into wrongs (...)"



Para os que, de alguma forma, ficaram curiosos com o nome da banda (Death Cab for Cutie), informamos que este provém de uma musica interpretada pelos The Bonzo Dog Doo Dah Band no filme dos Beatles Magical Mystery Tour.



2 de Junho de 2011

Fronteira

Neste lugar de vultos apressados, de esperas ansiosas, do jornal lido duas, três vezes, do fim para o início, pergunto-me para onde deveria ir, por que vou para onde vou. Partida, regresso, tanto faz, a fronteira é aqui. Lá fora, o mundo é apenas um mar de alcatrão e cimento com marcas pintadas no chão.

À minha frente, ao meu lado, vejo os rostos de sempre: o casal eterno prestes a embarcar na viagem infinitamente adiada; a menina com os oito anos que nunca tive quase a cumprir o sonho que até agora morava somente num avião de papel igual ao meu; os adeptos do clube azul, branco, vermelho, verde, que hoje regressam a casa triunfantes; o homem-torre de semblante escuro, fato escuro, óculos escuros, que segura uma pasta com uma mão de quatro dedos.

Hoje, concentro-me em ti, jovem mulher “tax free” – sabes, talvez alguma coisa dentro de todos esses sacos não possa voar contigo, são as regras – pensei eu dizer-te, num intervalo em que as unhas deixassem de te roer os dentes. Pensei, mas não disse. Deixei-te abandonada ao olhar urgente para o relógio e continuei a ser o aparente desinteressado que hoje voa para longe de si mesmo.

À minha frente, ao meu lado, todos a postos. Hoje voaremos para Londres. A fronteira é lá. Depois do mar de alcatrão e cimento.